António Ramos Rosa nasceu em Faro no dia 24 de Outubro de 1924. Viveu a sua infância na solidão do Convento de S.Francisco, em Faro. Os pais, de parcos recursos, eram os “guardiões “ do convento tendo-lhes sido cedida uma dependência, onde viviam. O quarto do poeta não possuía janelas.

Esta criança vivia rodeada de paredes, muros e arcadas brancos, pátios interiores, escadarias, terraços. Estes, a sul, estavam  voltados para o mar e para as pequenas montanhas azuladas, a norte. Dos terraços desfrutava o mar com as suas “ilhas solares e praias” que ao fim e ao cabo correspondiam à Ria Formosa, mudando de tamanho, forma e cores, consoante as marés e hora do dia. Dali contemplava também as salinas (o sal). O fascínio que teria sido a contemplação do pôr-do-sol, até desaparecer no horizonte longínquo, no mar.

Por razões de saúde, uma depressão, abandona os estudos no sexto ano do liceu. Os pais pretendiam que o filho seguisse a vida eclesiástica tendo ingressado no seminário de Faro, por breve período, uma vez que não era essa a sua vocação. Para ganhar a vida, em 1945 ruma para Lisboa para trabalhar como empregado de escritório. Este emprego causa-lhe uma” experiência extremamente dolorosa, porque asfixiante” pelo que desiste. Mais tarde, de 1949 a 1951 volta ao mesmo escritório e mais uma vez abandona este cargo, de forma definitiva. Esta experiência frustrante inspira-o para os poemas ”O Funcionário Cansado “ e “O Boi da Paciência”. Regressa a Faro onde dá explicações de português, francês e inglês. Como cidadão  atento aos problemas sociais do seu país  liga-se à política, integrando o M.U.D. Juvenil. A sua actividade política leva-o à prisão, no Governo Civil de Lisboa, onde permaneceu durante 3 meses entre quatro paredes.                                                             

 

Desde muito  cedo  interessou-se   pela leitura de escritores portugueses e estrangeiros, nomeadamente na área da poesia.  Aperfeiçoou e adquiriu conhecimentos que lhe permitiram dar aulas como professor em Lisboa e enveredar pela carreira de tradutor, onde ganhou imenso relevo a nível nacional e no  estrangeiro. Teve contacto regular com poetas estrangeiros, como Éluard, com quem trocou conhecimentos e experiências, não se deixando influenciar pelos mesmos, mantendo o seu estilo próprio até o fim da vida. A troca de correspondência e o contacto directo,  com várias deslocações ao estrangeiro, deram-lhe uma dimensão internacional.

Foi apelidado de “Poeta Solar” pela sua referência frequente ao sol , à claridade, ao clarão e à luz, palavras que se repetem ao longo da sua obra. Também chegou a ser apelidado de “Einstein da poesia” pela sua tendência do retorno, às origens, ou seja após a morte ficar junto da terra, das raízes, da cal da sepultura, de se transformar em pontos ou seja átomos integrando  o Universo. Impregna a sua poesia de erotismo metafórico quer referindo-se ao ser humano, quer à  natureza. A procura da palavra poética que prolongue a celebração da mais absoluta comunhão com o universo. O retorno às origens torna-se uma das suas obsessões. Os seus poemas, pelo caráter repetitivo evocam exercícios diários de sobrevivência.

Em 1958 publica o seu primeiro livro, “O Grito Claro”.

Paralelamente à poesia dedicava-se ao desenho: “Eu faço desenhos que são rostos e faço-os com uma grande espontaneidade....são automáticos e confluentes…”. Regra geral desenhava o rosto de mulher ou de pássaro, de perfil, com apenas um olho. Chegou a expor estes desenhos.

Perante uma folha de papel, em branco, como se um deserto se tratasse, preenchia-a ou com desenhos ou com palavras; enquanto desenhava da sua mente brotavam-lhe as palavras. Como explica o título do seu último livro, ele gravava os seus poemas “Numa folha leve e livre”.

Colaborou em numerosas revistas culturais e jornais. Foi agraciado com numerosos prémios,nacionais e estrangeiros.Deixou mais de 80 obras publicadas. Recebeu o doutoramento Honoris Causa, em Faro.                                                                

 

Aos 38 anos volta para Lisboa e casa com a poetisa Agripina Marques. Teve duas filhas e três netos.

 

No final da sua vida, segundo Tolentino Mendonça, o cabelo e a barba tinham praticamente  ocupado o lugar do rosto, como uma explosão de branco, excessiva, desalinhada e vital permitindo apenas por esquivas fresta entrever a linha da boca ou os olhos. António Ramos Rosa é um dos mais importantes poetas da segunda metade do século XX, vem a falecer aos 89 anos e deixa obra marcante que no futuro motivará seguramente um maior aprofundamento e compreensão.

 

PULITA

Talvez a minha vocação não seja esta
ou seja esta por ter perdido o espaço que nunca tive
Era algo selvagem algo violentamente vivo
o espaço na sua integridade deslumbrante
o mar na sua plenitude de felina substância
as ilhas de ouro verde as ilhas solares
as grandes pradarias com os seus cavalos vagarosos e tranquilos
a liberdade de ser o fogo com as suas veias indolentes
Sim eu perdi todo esse espaço que nunca tive
e se escrevo é para inventar um espaço a partir desta perda
na ficção de respirar o que há de mais selvagem e mais nu
como se estivesse entre escarpas verdes inundado pela espuma
ou como se estivesse no esplendor do deserto à hora do meio-dia
Mas o que faço não é mais do que um trabalho de insecto
que perfura a cal e as páginas dos livros
para traçar a sua caligrafia insignificante
na nulidade de uma matéria árida e anónima

António Ramos Rosa